O ator e diretor Elias Andreato assina a concepção
cênica de mais um espetáculo, que
estreou dia 28 de abril no Teatro Eva Hertz,
na Livraria Cultura.
O monólogo Ghetto é baseado
na obra de Zvi Kolitz intitulada “Yossel
Rakover dirige-se a Deus” (Yosl Rakover
Talks to God), escrita, em 1946, para o jornal
judaico Ídiche Zeitung, de Buenos Aires.
Curiosamente, esses escritos foram, por engano,
considerados reais e depois de desfeito o mal
entendido, transformados em livro.
O ator judeu Fábio Herford, que conheceu
a obra através de Elias, vive, no palco,
o polonês Yosse.
Em 1943, horas antes de sua execução,
o personagem deixa nas ruínas do gueto
de Varsóvia (o maior reduto judaico da
Alemanha Nazista, na Polônia), um documento
com relatos sobre o Holocausto.
A trilha original, tocada ao piano por Herford,
dá o ritmo da encenação
e acentua a emoção da história
contada com maestria pelo ator.
O roteiro é de Elias Andreato, que
considera o tema de importância ímpar
por ouvirmos um personagem falando de sua tragédia
pessoal e conversando com Deus antes de sua
morte.
O diretor também enfatiza: “Acreditamos
que esta obra poética tem a grandiosidade
de falar não só de um povo, mas
de todos que já sofreram algum tipo de
preconceito e violência por suas opiniões,
credo, raça e cor”, afirma.
O texto foi apresentado a Andreato pelo ator
Guilherme Leme, que no meio do caminho desistiu.
Sobre a sua parceria com Fábio Herford,
comenta: “Como eu tinha ficado muito impressionado
com a história, apresentei a obra ao
Fábio e ele adorou. Pensei no roteiro
para ele e queria que ele tocasse piano e criasse
a trilha. Foi muito bacana essa experiência
porque o Fábio, que não é
um judeu ortodoxo, começou a estudar
e a pensar na trajetória da família
dele. Nunca é demais suscitar reflexões
sobre o desrespeito à diversidade, pois
ao conhecer as tragédias do Nazismo,
por exemplo, os seres humanos terão subsídios
para impedir que ações brutais,
que violam os diretos do indivíduo, sejam
combatidas. Elias Andreato e Fábio Herford
são elogiados por colegas de profissão
na estréia de Ghetto. Na estréia
do espetáculo, estavam presentes parentes,
artistas e amigos. Karen Rodrigues, que atuou
com Andreato no espetáculo O Avarento
e Miriam Mehler, que participou de Mãe
é Karma, de autoria de Andreato, ressaltam
o talento do artista: O Elias é adorável,
um dos meus melhores amigos e um diretor maravilhoso,
e ator superlativo, afirmam. Claudio Fontana
e Dib Carneiro Neto, respectivamente ator e
autor de Adivinhe Quem Vem Para Rezar, dirigido
por Andreato, salientam o seu talento e generosidade:
“Ele dirige sobre o ponto de vista do
ator, por isso o trabalho dele é muito
raro encontrarmos um diretor como ele, diz Fontana.
“Ele é muito generoso, trata a
gente com muito carinho. É um ator espetacular”,
destaca Neto.
Denise Fraga, parceira de Herford em A Alma
Boa de Setsuan, também evidencia o talento
dos colegas de profissão: “Estou
doida pra ver este espetáculo, que eles
queriam fazer há bastante tempo, e que
promete porque marca o encontro de um grande
ator com um grande diretor.”, diz. Para
o ator Leopoldo Pacheco, há três
anos e meio com Elias em Amigas, Pero No Mucho,
o artista domina o drama e a comédia:
“Faz lindamente Amigas, achou a Dercy
Gonçalves que mora dentro dele”
e complementa: “Ao mesmo tempo, faz brilhantemente
um espetáculo como Doido e dirige Ghetto,
que é profundamente tocante”, diz.
“É maravilhoso ouvir o Fabinho
contando a história do ghetto de Varsóvia.
Fiquei muito emocionado porque é muito
forte esse contato com Deus”, finaliza.
A atriz Walderez de Barros trabalhou várias
vezes com ele e o considera um grande companheiro
de palco. “Lago 21 foi um trabalho especial,
era dirigida pelo Jorge Takla e citava trechos
do Hamlet e da Gaivota; o texto era muito sensível.
Foi nesse espetáculo que surgiu a nossa
amizade, dentro e fora do palco”, conta.
Entrevista com o ator
Fábio Herford
Como foi a experiência de ser dirigido
pelo Elias Andreato?
Fábio Herford - Como
diretor é uma pessoa muito sensível,
sabe aproveitar muito bem tudo que um ator pode
oferecer.
O que mais te chamou atenção
no processo de direção?
Herford - Na minha opinião,
ele faz o que um diretor deve fazer, ou seja,
encaminhar, iluminar. Além disso, o Elias
também sendo ator, compreende muito bem
o nosso ofício, as nossas dificuldades.
Como foi rever a história de sua família?
Herford - O "tema"
holocausto sempre esteve comigo e com a minha
família. A palavra que você usou
REVER é muito apropriada, pois o meu
aprofundamento no personagem, naquilo que ele
está vivendo e pensando, fez com que
eu revisse muita coisa, às vezes sob
um novo ponto de vista, às vezes revendo
antigas questões.
Teve a ajuda dos seus familiares nas pesquisas
para a criação do personagem?
Herford - Eu pensava que
o tema fizesse com que meus pais e seus amigos,
também sobreviventes, quisessem se afastar
do assunto, mas, para a minha surpresa aconteceu
o contrário, se envolveram muito. Fizeram
questão de me ajudar, discutindo alguns
pontos do texto, me deram referências,
me mostraram situações, imagens.Tudo
isso serviu de alimento para a construção
do Yossel, para a me aproximar dele.
Fale da reação do público.
Herford - A reação
do público é muito boa, sinto
que ninguém fica indiferente
Na sua opinião, qual a principal
função desta obra?
Herford - Para mim o principal
objetivo de montar esse texto é combater
a indiferença, e pensar qual é
a nossa função ativa nos acontecimentos
de hoje.
Qual a importância de encenar esse texto?
Herford - Estar no palco,
lembrando toda a história, é muito
importante para mim. Me faz refletir naquilo
que eu desejo para o mundo hoje, para todas
as pessoas
Teatro Eva Herz - Livraria Cultura - Conjunto
Nacional. São Paulo/SP