A Cia Os Fofos Encenam tem uma trajetória
pautada na pesquisa e no exímio cuidado
com as suas produções.
A formação da Cia aconteceu
em 1992, no curso de Artes Cênicas da
Unicamp, e em 2000, já em São
Paulo, e com a equipe ampliada, estrearam Deus
Sabia de Tudo e Não Fez Nada, de Newton
Moreno.
Os Fofos focam as suas produções
em duas temáticas principais:
A valorização do circo-teatro,
com a direção e adaptações
assinadas por Fernando Neves, e as tradições
do nordeste relatadas através das realizações
de Newton moreno. Iniciativas que garantem aos
Fofos espaço entre os melhores grupos
teatrais do país na atualidade.
Deus sabia de Tudo e não Fez nada,
A Mulher do Trem, Assombrações
do Recife Velho, Ferro em Brasa e Memória
da Cana são espetáculos que estão
no repertório do grupo e têm conquistado
elogios e prêmios.
Para celebrar uma década de atividades
na capital paulista, esses trabalhos estão
sendo apresentados na sede dos Fofos, na Bela
Vista. No momento está em cartaz Ferro
em Brasa e a partir de, Deus sabia de Tudo e
não Fez nada.
Ferro em Brasa foi a primeira incursão
dos Fofos pelo drama e apresenta ao público
uma história simples quanto á
estrutura, mas que proporciona interessantes
reflexões sobre a relação
humana.
A peça estreou em 2006 e com esse trabalho
os Fofos demonstram que dominam a tragédia
e a comédia.
A trama, ambientada em Portugal, no início
do século passado, fala de assuntos universais,
como a submissão, preconceito e o desejo
de liberdade. Com o passar dos anos a mulher
conseguiu, mas o preconceito, a preocupação
com a vida alheia e resquícios de uma
sociedade patriarcal repressora, ainda impera
no cotidiano de muitas famílias.
O texto homônimo de Antonio Sampaio
ganhou adaptação de Newton Moreno
e relata a história da aldeã Judith
que, às vésperas do seu casamento
com o fidalgo Júlio, percebe que ele
não a ama mais e se deixa dominar pela
tristeza.
Boatos sobre um possível romance entre
a mãe de Judith, Margarida, e Júlio
ocasionam uma tragédia que ocasiona o
desmoronamento da família, que no início
da trama protagoniza momentos de celebração,
humor e alegria... Margarida vive o dilema de
quem precisa - e quer - preservar a sua família,
mas não consegue dominar a atração
que sente pelo futuro genro. João, o
marido traído, assiste a um beijo do
casal e decide matá-los. Judith enlouquece.
O silêncio e a dor dominam os personagens
e deixam um clima de incômodo no espectador.
O diretor Fernando Neves, descendente direto
de artistas circenses, trabalha com precisão
o gênero circo-teatro.
Encontrou a obra em velhos baús da
família e com essa encenação
contribui para que a tradição
do circo e o espírito de suas encenações
permaneça vivo no cotidiano dos indivíduos.
Fados entoados pelos atores e acompanhados
ao piano dão o clima à encenação
e contribuem para intensificar as terríveis
marcas da tragédia que assola a família.
Cenários e figurinos, inspirados nas
encenações de circo teatro, transportam
a platéia para o universo interiorano
e melodramático da obra.
As cenas ganham força com a presença
do avô de Judith (Marcelo Andrade), que
prepara o público para a tragédia
iminente e expõe os seus sentimentos
através de textos sofridos e cheio de
poesia.
O elenco apresenta uma ótima química
em cena e todos os atores dos Fofos merecem
atenção pela qualidade da interpretação.
Destaque especial para Eduardo Reyes, que
acabou de substituir José Roberto Jardim
no papel do marido traído e dá
ao seu personagem o tom exato do desespero em
ver a esposa com outro homem e demonstra grande
afeição pela filha Judith.
Vale a pena assistir ao espetáculo
e conhecer o aconchegante Espaço dos
Fofos.
Após a apresentação é
possível experimentar uma sopa de caldo
verde (R$9,00).